O mundo pós-pandemia, os recentes desastres ambientais e as projeções de novos eventos climáticos extremos, como o El Niño, impõem desafios sociais cada vez mais complexos e colocam a Saúde Coletiva no centro do debate contemporâneo sobre políticas públicas.
Em sintonia com esse contexto e a partir de um olhar atento de quem vivenciou profissional e pessoalmente um desastre ambiental, a Profa. Dra. Júnia Aparecida Laia da Mata, professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-aluna de doutorado da Faculdade de Enfermagem (FEnf) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ministrou a palestra intitulada “Estratégias de Proteção e Promoção da Saúde Materna e Infantil frente ao desastre excepcional no Rio Grande do Sul”, durante a 18ª edição do Café com o Pesquisador, realizada em 11 de agosto, na FEnf.


Foto 2 (direita): Larissa Rodrigues, docente da FEnf/Unicamp, abriu a 18ª edição do Café com o
Pesquisador: a pesquisadora participa de articulação de pesquisas para proteger
gestantes, puérperas, recém-nascidos e crianças em desastres climáticos.
A docente iniciou o encontro propondo uma reflexão sobre a mudança no conceito de desastre, contrapondo a concepção de que esses eventos sejam exclusivamente naturais ao entendimento contemporâneo de que também são determinados e agravados por vulnerabilidades sociais, estruturais e econômicas. Na sequência, abordou os impactos das enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e ressaltou a urgência de implementação de políticas públicas, pesquisas e iniciativas de inovação capazes de responder a desastres dessa magnitude e em contextos de extrema vulnerabilidade, especialmente para gestantes, puérperas, recém-nascidos e crianças.
“As políticas públicas apresentam lacunas e são focadas na população adulta, negligenciando a saúde materno-infantil, que é a mais vulnerável, sofre impactos profundos e frequentemente é excluída dos programas de redução de riscos”, afirmou.
Júnia também destacou a atuação dos profissionais de enfermagem e da sociedade civil na assistência humanitária, sobretudo diante da ausência inicial de diretrizes e protocolos estruturados. Ela e outros enfermeiros voluntários ofereceram assistência clínica e acolhimento aos grupos mais vulneráveis, além de cuidados voltados à saúde mental e à redução do sofrimento, por meio de iniciativas como a brinquedoterapia e a criação de histórias infantis.
“Criamos material didático intuitivo, digital e impresso, que consistiu em um guia prático para profissionais de saúde na linha de frente atuarem nos abrigos, com foco no manejo do medo, amamentação, higiene do bebê e outros cuidados, o qual foi viabilizado por financiamento da Fiocruz e distribuído em abrigos de municípios em situação de calamidade no estado”, acrescentou. Intitulado “Proteção e promoção da saúde materno-infantil em situação de calamidade”, o toolkit foi desenvolvido em parceria com a Unicamp, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), e o conteúdo já está disponível em inglês e francês.

Para a pesquisadora, a escassez de dados no país sobre os impactos desses eventos climáticos na saúde constitui um obstáculo significativo para o desenvolvimento de pesquisas. Nesse sentido, defende que a enfermagem amplie sua atuação diante das mudanças climáticas. “Precisamos oferecer formação transversal nas universidades e criar projetos de ensino, pesquisa e inovação na interface entre clima e saúde materno-infantil, pois cada vez mais vivenciaremos eventos ambientais extremos”, alertou.
“Temos uma disciplina de saúde coletiva sobre emergências humanitárias e desastres focada no público materno-infantil. Em 2025, inauguramos o Laboratório de Pesquisas em Clima e Saúde Materno-Infantil (CLIMAMI) na UFRGS, com a colaboração da docente Fernanda Garanhani de Castro Surita, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Atualmente, estamos na fase de revisão de escopo, levantamentos nacionais para mapeamento de lacunas e construção de estratégias nessa área, contando também com a parceria da docente Larissa Rodrigues, da FEnf/Unicamp”, disse.
Esta parceria entre Unicamp e UFRGS integra uma rede nacional de articulação entre universidades públicas voltada ao desenvolvimento de respostas efetivas para a mitigação dos impactos dos desastres ambientais sobre a saúde coletiva.
